terça-feira, 18 de setembro de 2012

QUEM FABRICA CULTURA?

“Este artigo diz respeito como Manuela e quem a assessorá-la tem visão a cultura”.

O termo “indústria criativa” surgiu há alguns anos para designar um conjunto de atividades culturais que, direta ou diretamente, dialogam também com a economia, gerando bens e renda. Ele se contrapõe à visão romântica do artista isolado, solitário, às vezes um misantropo, que não pede nem aceita a intervenção do Estado em sua obra. É óbvio que, numa proposta séria de política cultural para Porto Alegre, esse tipo de visão está superada. Se o velho artista “ourtsider” ainda existe, ótimo, mas vamos deixá-lo em paz, ou quem sabe simplesmente fornecer-lhe (se ele permitir) um espaço para a circulação de seus trabalhos.

Milhares de artistas e produtores culturais querem que o Estado participe ativamente da cultura desta cidade, É importante ouvi-los e construir com eles as prioridades. Participei da inauguração do comitê de cultura da Manuela e fiquei muito feliz de encontrar caras novas, misturadas a velhos conhecidos. Foi ótimo saber o que o pessoal do hip-hop e do reggae acha importante. Eles são um tipo fundamental de “operário da cultura”, pois atuam na periferia e levam um brilho de esperança e alegria para áreas da cidade que são carentes de quase tudo. A indústria criativa reduz a insegurança e ajuda na educação.

É óbvio que todos os estilos musicais devem ser respeitados, mas o município precisa ter suas prioridades. O mesmo se aplica às outras manifestações culturais: teatro,dança, artes plásticas, cinema, literatura e o que mais aparecer. Também é preciso considerar as diversas faixas etárias que produzem e consumem cultura, para que elas sejam atingidas, se não simultaneamente, pelo menos sequencialmente. Escolher prioridades não significa desprezar alguém, e sim criar estratégias de médio e longo prazo pra se chegar onde se quer.

O Fumproarte precisa ter mais verbas. É o nosso instrumento, em tese democrático, para distribuir os recursos de financiamento da Prefeitura para a cultura. Se ele tem problemas graves (é o que ouvi no comitê), temos que trabalhar duro para resolvê-los. Todas as artes devem se beneficiar, e numa indústria criativa de base municipal a melhor intervenção é a plural e democrática. Naturalmente aparecerão áreas de destaque e excelência.

Outro desafio é terminar a Cinemateca Capitólio. Com a obra arquitetônica pronta, o que demandou grandes investimentos da Petrobrás e do BNDS, a cidade precisa vê-la funcionando de verdade. Suas portas fechadas são uma vergonha para Porto Alegre.

Finalmente, é preciso implementar uma política democrática e popular de ocupação dos espaços culturais da prefeitura. O novo Araújo Viana precisa manter sua tradição de abrigar manifestações locais do rock e da música em geral. Se virar um teatro tradicional, com altos custos de locação, perderá sua identidade.

Enfim, se Porto Alegre quer uma indústria criativa forte, precisa aprimorar o diálogo com os operários da cultura, aumentar os recursos para financiá-los e prover locais onde a sua produção circule de forma democrática e inclusiva.

por Carlos Gerbase - Cineasta, músico e professor universitário





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