sábado, 13 de outubro de 2012

RS: hospital realiza 1ª cirurgia de separação de gêmeas siamesas

As bebês Kerolyn e Kauany Ribeiro do Amaral, 9 meses de idade, estão estáveis no Centro de Terapia Intensiva Pediátrico. A mãe Adriana Ribeiro, 31 anos, e o pai Juliano do Amaral e Silva, 23 anos, expressaram alegria e alívio pelo sucesso da cirurgia de separação

Foto: Ender Machado Monteiro/Assessoria de Comunicação HSVP/Divulgação

No dia 2 de outubro, o Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) de Passo Fundo, Rio Grande do Sul, realizou a sua primeira cirurgia de separação de gêmeas siamesas. Em entrevista coletiva realizada nesta segunda-feira, a instituição anunciou o fato inédito na trajetória dos 94 anos do HSVP. O procedimento foi um sucesso e as bebês Kerolyn e Kauany Ribeiro do Amaral, 9 meses de idade, estão estáveis no Centro de Terapia Intensiva Pediátrico.

O cirurgião pediátrico Dr. Gustavo Pileggi Castro, que atua no corpo clínico do HSVP, é o responsável pelo procedimento cirúrgico e informou que o acompanhamento do caso iniciou ainda na gestação, com o diagnóstico pré-natal. "Desde quando elas nasceram, no dia 31 de janeiro de 2012, elas cresceram, ganharam peso e criaram resistência para enfrentar a cirurgia que foi uma das maiores já realizadas. Hoje, Kerolyn está pesando 7 kg e Kauany 5.700 kg", detalhou.

Ao justificar o sucesso do procedimento, o cirurgião pediátrico salientou que o trabalho e o empenho da equipe do CTI Pediátrico e Neonatal, da pediatra assistente, da equipe cirúrgica, à estrutura do HSVP e à estrutura anestésica foram decisivas para o êxito da operação.

Quanto à questão da raridade do caso, Castro informou que é estimado que a cada 50 mil nascimentos de crianças vivas, há probabilidade de ocorrer um caso de gêmeo conjugado. E o tipo das meninas atinge cerca de 6%, que são os denominados onfalópagos. "Dentro dos casos raros é uma raridade. Elas eram unidas por todo o abdômen, desde o fígado, os intestinos, a parte da bexiga e a genitália. A parte óssea era separada completamente, o que permitiu manter as duas perfeitas". O cirurgião menciona que a peculiaridade é que o fígado era unido, mas a parte da vascularização e a drenagem da bile funcionavam independentemente.

Daqui para frente, as meninas terão várias outras cirurgias. "Com o tempo iremos fazer pelo menos três cirurgias para que elas tenham uma vida normal. Ficaram cicatrizes, mas elas terão vida normal", afirmou Castro. Em breve elas deverão receber alta hospitalar. Agora elas começam a comer e se não tiverem nenhuma infecção pós-operatória, poderão ir para casa.

Para o cirurgião chefe da Equipe de Transplante Hepático do HSVP, Dr. Paulo Reichert, a separação das gêmeas siamesas foi um enorme desafio cirúrgico. "Quando se separa gêmeas siamesas, habitualmente, uma falece e outra sobrevive. Nós estamos muito felizes, porque as duas sobreviveram e estão bem. Cirurgicamente é algo bem complicado. Eu entrei para a separação do fígado que era totalmente unido às duas e tive dificuldade até de localização, mesmo com muitos anos de trabalho. Por isso, é muito gratificante ver as meninas bem. Não houve sangramento. Tudo ocorreu de maneira tranquila".

O diretor médico do HSVP, Dr. Rudah Jorge, relatou que desde o início os médicos do CTI e os cirurgiões começaram a estudar o caso e a possibilidade de realizar a cirurgia. "Eu pedi à equipe que entrasse para a cirurgia para salvar as duas crianças. E essa foi a intenção dos especialistas", enfatizou, ao parabenizar a equipe médica, enfermeiras, médicos neonatologistas e todos que estiveram envolvidos no procedimento.

Alívio e felicidade dos pais

A mãe Adriana Ribeiro, 31 anos, e o pai Juliano do Amaral e Silva, 23 anos, residem em Marau e durante a entrevista coletiva expressaram alegria e alívio pelo sucesso da cirurgia de separação das filhas.

Mãe de quatro meninas, Adriana descobriu que teria gêmeas siamesas aos cinco meses de gestação. No primeiro momento ficou apavorada. Depois do impacto da notícia, ela conta que junto do esposo buscou informações na internet e foi se tranquilizando. "Eu sabia que elas poderiam nascer antes e nasceram de 35 semanas. Meu receio era saber como seria quando elas se mexessem, se ficariam bem. Quando eu fiz ultrassom a médica me acalmou, dizendo que elas tinham quatro bracinhos, quatro perninhas e que estavam bem".

Em relação à rotina dos pais, Juliano disse que realmente não foi fácil se dividir entre as duas filhas que ficavam em Marau, o trabalho e o hospital. Mas agora é o momento de felicidade por saber que elas não estão utilizando aparelho para respirar e que estão bem. "O Hospital São Vicente me acolheu como filha. A equipe médica sempre nos apoiou. Estamos muito felizes. Depois de oito meses de luta, pela primeira vez elas vão para casa. Agradecemos muito ao hospital e a nossa família", enalteceu Adriana que só espera o momento de levar as filhas para casa.

Em virtude de Juliano trabalhar como autônomo e da mãe ser do lar, eles precisarão de auxílio para poder cuidar das quatro filhas. "Nós somos trabalhadores, mas toda ajuda para cuidar das meninas será bem-vinda".